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As emoções passam velozmente, ainda embaladas pelo
ritmo frenético que nos levou até ao berço da reconquista, bem lá no
alto dos picos, altar de deuses pagãos.
A subida aos cumes foi feita já o sol se inclinava depois de nos ter
iluminado os gigantes das Peñas, Picos e Torres, bem lá no alto.
Foram mais de quatro horas a andar a pé desde "pueblos reconditos",
aos 700 metros de altitude, até coração do maciço central na base do
Urriellu. O refúgio com o mesmo nome, onde iriamos assentar arraiais aos
cerca de 1960 metros de altitude. A nossa primeira aventura começou por
entre pastos verdes alisados e salpicados por pequenas casas de pedra,
como que já nascidas ali, numa imagem rodeada pelos enormes guardiões do
quaternário, silenciosos escutando o badalar do gado que
imperceptivelmente e despreocupadamente vagueava, e terminou no
interior da escuridão de breu, sob uma chuva batida que nos fez sentir
estar já em pleno território de gigantes rudes e insensíveis à fragilidade
do ser humano. Eram 8h30 da noite quando lá ao cimo de um pequeno cume se
conseguiu vislumbrar finalmente a luz fantástica do conforto de um abrigo.
Miraculoso! De resto já qualquer peça de roupa que trazíamos no corpo
pingava simplesmente. Tanta gente que se amontoava em tão pequeno cubículo
de espaço, como que fugida da fúria dos infiéis que imparavelmente se
aproximavam daquelas montanhas.
No dia seguinte foi uma autêntica oferenda que nos foi apresentada
naquela magnitude natural! O mar não tinha limite. O azul alaranjado era
apenas propriedade do céu, picado pelos cumes e especialmente pelo nosso
companheiro fiel e silencioso, o tal chamado de "Naranjo de Bulnes" mesmo
coladinho a nós, ali ao lado. Por baixo e outra vez, um mar tranquilo de
nuvens. O silêncio era sempre parte da nossa sinfonia diária, já que para
além de uns quantos deslocamentos de pedras que se ouviam, pouco mais nos
distraia os ouvidos. Mas sempre foi assim nas montanhas.
E lá fomos os quatro "montañeros" picos acima pelas linhas já
rasgadas no vale glaciar e nos iam servindo de guia no inóspito do
terreno. Sim, porque apesar do GPS que ia connosco a duplicar, nenhum
deles infelizmente nos dava confiança suficiente para seguir apenas a
olhar para a paisagem e além disso as mariolas também não são boas
conselheiras porque estão espalhadas por tudo quanto é canto e a maior
parte das vezes sinalizam caminhos que vão para lado nenhum.
Em todas as caminhadas em que já participei, há sempre lições que
se tiram, reflexões que se fazem, conversas que se têm e nos deixam a
pensar. Pessoalmente é das coisas mais enriquecedores, porque de facto
aquele ambiente propicia-se para este tipo de conclusões, muitas delas
pessoais.
Curiosamente nesta caminhada acho que todos acabámos por tirar uma lição
comum.
A liberdade é das coisas mais fantásticas que o ser humano deve ter
e preservar. Mas a liberdade não nos pode desresponsabilizar como pessoas,
dentro da sociedade onde vivemos e até no meio de um ermo no cimo da
montanha essa conduta deve estar presente. Aliás aqui, mais do nunca deve
estar perfeitamente presente.
Num ambiente em que somos expostos a riscos a maior parte das vezes
imponderáveis, todos os cuidados são poucos. E é nesta condição que nos
aventuramos, contanto também que a estrelinha da sorte nos iluminará
nalgum "momento de verdade". Mas porquê ainda abusar dessa estrela que nos
tem conseguido trazer tanto sucesso em todas as aventuras que temos feito
por essas montanhas fora?
Uma regra de ouro em qualquer ambiente adverso que de alguma forma
possa colocar-nos em risco é de nunca o fazer sozinho. E os Picos da
Europa não são excepção, onde para além do terreno ser muito adverso, a
meteorologia é uma autêntica roleta russa, onde tanto pode fazer sol em
toda a manhã, com temperaturas amenas, logo a seguir em pouca mais de 10
minutos cair um nevoeiro denso com descidas bruscas de temperaturas e
começar a chover. E acaba-se a paisagem.
O que aconteceu a seguir já se previa. Os pontos de referência
desaparecem, o GPS fica sem bateria e a luminosidade reduz-se
drasticamente. Ou seja, fica-se perdido e sozinho, sem saber por onde se
orientar. Mais óbvio não podia ser. Felizmente foi possível contactar o nº
de emergência e foi activado o serviço de resgate em montanha.
Nestas circunstância, a noite e a temperatura a cair, sem saber
para que lado caminhar porque já não se consegue ver nada o melhor mesmo
é parar, e esperar que o tempo melhore, se possível abrigar-se num buraco,
com uma manta de sobrevivência (que por sinal o nosso companheiro também
não tinha) e depois de dar alguns pontos de referência, como por exemplo o
último sítio que se tinha conseguido identificar, a posição da lua,
eventualmente alguma luz que se consiga ver e esperar, mais nada, se
possível, sem entrar em pânico, porque afinal já não somos os primeiros a
sobreviver à noite outonal na montanha.
Depois disto passado e porque esta história acabou com final feliz
às 7 da manhã no refúgio, quando o resto do grupo já se preparava para
partir já não para uma nova caminhada, mas à procura da "ovelha
tresmalhada" a sensatez diz-nos que tiremos as devidas elações, sem
vaidosismos de vãs glórias e pseudo-heroismos. Mas sim, ponderar os riscos
que se correram e o preço pago. Afinal é esta razão porque somos livres.
Nuno/ Tempestade |
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De referir que o artigo contem
informações imprecisas. Pois o grupo encontrava-se todo ele por de
baixo do Pico de Pena Vieja e não no refugio quando um dos elementos
se separou. |
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